sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Observações em um dia de chuva...

Fonte: deolhonotempo.blogspot.com/2009

Você olha para o horizonte - céu límpido, tal e como uma cena de paisagem digna dos cenários renascentistas. Sorri. Porém, como num filme de comédia, os outros 180º de visão que não tem, denunciam uma tempestade que pode se tornar a próxima manchete catastrófica. Então sai e não leva guarda-chuva, sombrinha nem capa de chuva.

Isso normalmente acontece... E mais frequentemente do que gostariam os desprevenidos - como eu!

Tomar chuva em Belho Horizonte é um convite à estudo antropológico. Depois de quatro anos ainda não consigo entender o que leva o belo-horizontino a ter tanto gosto pela chuva! Vamos sair, está chovendo! Mas não para tomar chuva... Para andar de carro! E assim, cria-se uma "meleca" de proporções monumentais. O povo da capital mineira não gosta de tomar chuva, mas não resiste à sair de carro colaborando nos engarrafamentos, fechando cruzamentos. Às vezes até desavisado que, exatamente aquela tarde chuvosa foi escolhida à dedo por sua bateria para te deixar na mão.

BH se torna lenta, praticamente um elefante! Pesada de tanta gente andando à passo de procissão - já que mineiro adora um "munturum de gente andando devagarim" - das micaretas na Bahia, passando pelos carnavais em Diamantina e Ouro Preto às celebrações de santos católicos! Se você for como eu, um reles pedestre que almeja ter um carro, mas se apavora ao ouvir as expressões "preço da gasolina", "seguro obrigatório" e "I.P.V.A.", com certeza terá um compromisso inadiável bem no momento da tormenta. E Deus, uma semana atrás sabia exatamente daquilo, no momento em que você agendou tal compromisso. Ele te avisa? Não, vossa majestade celeste contenta-se apenas em dar uma risadinha di-vi-na.

Mas hoje você se preparou. Pegou o guarda-chuva encostado há meses, preparou tudo de maneira que ficasse ao alcance das mãos e colocou aquela "roupa-de-tomar-chuva" com toda a presteza. Você pode até não saber, mas ela servirá SOMENTE para este propósito. Saindo de casa, o ponto de ônibus está perto. Porém, a chuva sabe muito bem disso e faz sua apresentação antes do que você previa - sempre! Só pra você ter aquele momento de pressão psicológica no qual o ônibus (lotado - lógico, pois está chovendo) vem se aproximando e você tem de virar um contorcionista para segurar o guarda-chuva, alguma sacola ou mochila e ainda conseguir pegar as moedas que usará para pagar a passagem. Ao embarque conturbado segue a surpresa de constatar que nenhum dos bancos livres está seco. Você ficará em pé do lado daquele senhor com a trava da sombrinha desregulada e ela abrirá bem do seu lado, pois assim estava escrito.

Conforme o tempo passa e os vidros fechados embaçam, o cheiro do ônibus se torna uma combinação de animal molhado, suor e mofo que você não sabe mais discernir qual fragância é qual naquele pout-pourri! Só quer saber em chegar logo no destino. A chuva percebe exatamente suas intenções e "engrossa o caldo". Enquanto desce os degraus da porta de desembarque, parece que a trava da sombrinha escolheu se esconder de você só para tornar esta aventura mais emocionante. Nada como um bom resmungo de alguém que descerá atrás de você e aguarda impacientemente pelo encontro de seu dedo com a trava do guarda-chuva, para incentivá-lo a achar mais depressa. E saindo do ônibus você encontra justamente aquela poça de água!

O calcanhar de aquiles de qualquer ser-humano é ter suas meias encharcadas. Pode perceber, o humor decresce em progressão geométrica tal como uma lei da física. Então aquele é o momento da verdade - quantos passos mais você aguenta até sentir aquela irresistível vontade de ligar desmarcando o tal compromisso?

Dividir a calçada (molhada!) com aquele exército de guarda-chuvas é uma tarefa que exige leis sociais bem estudadas, como por exemplo: Qual guarda-chuva vai por cima, o meu ou o seu? Enquanto nenhum dos dois cede, o encontrão é inevitável, afetando sempre um terceiro cidadão. Disso pra um "engavetamento de guarda-chuvas" é um pulo! Outra coisa interessante de se notar - o design! Pretinho básico continua sendo a escolha da maioria. Estampas com motivos florais deixam ainda mais elegantes algumas senhoras e moças enquanto causam grande constrangimento aos rapazes que não tiveram outra escolha. Existem também variações de modelo como sacolas de supermercados, lojas de marca e até quem sabe, seu animalzinho de estimação que estava dando uma volta contigo justamente na hora da chuva. Não interessa, os dois irão molhar, então porque não pegar aquele seu poodle chato e fazê-lo defender o dono das incontáveis gotas que escorrem pela fronte ou pela calça jeans já encharcada? Ele vai latir e se molhar de qualquer maneira!

Se o objetivo fica no final "daquela" subida (em se tratando de BH, as chances são de 97%), você ainda precisa suportar a corrente de água descendente, os "buracos negros" de calçadas porcamente reformadas e nos cruzamentos, a água que sobe pela rampa de acesso aos cadeirantes. Pense que poderia ser pior - você poderia ser um cadeirante nessa situação toda. Mas não se importa, agora já está encharcado. Pode ser a "cereja do Sundae" com aconteceu comigo: Você chega no compromisso e descobre que chegou tarde demais. Reclamar? Bater o pé? Não adianta... Além do mais, a aventura de retorno promete. Tudo se repete com o adicional de que, na hora de sair do ônibus, seu guarda-chuva predileto resolveu ser altruísta e te poupar de abrí-lo. Mas cedo demais, de forma que fica bloqueando a porta de desembarque enquanto os passageiros te fuzilam os olhares. Engraçado constatar que até crianças entram no esquema desde cedo. Tomar chuva em Belo Horizonte é uma arte milenar, passada de pai pra filho por gerações e todos sabem muito bem o que fazer em cada emergência.

Você entra no abrigo do seu apartamento, sobe o elevador e abre a porta. Olha a paisagem pela sacada- agora que está à salvo, a chuva parou. Se prestar bastante atenção, pode ouvir ao longe o som de uma risada di-vi-na.

Pra você que achou que este seria um texto com alguma mensagem de sabedoria, aí vai:
Nem sempre a gente tem o que quer.

Abraço pra você!

1 comentários:

Comandante Ferrari disse...

ESSE É MEU AMIGO RANI, QUE CADA DIA QUE PASSA ME SURPREENDE CADA VEZ MAIS, COM SUA VÃRIAS CARACTERÍSTICAS, UM DELAS É ESCREVER ARTIGOS INTERESSANTES...